terça-feira, 1 de novembro de 2016

O filme "O Contador" e a definição de "normal"

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Christian Wolff assopra as pontas dos dedos em algumas cenas do filme; esse movimento é chamado de "stimming" (comportamentos de auto-estimulação), no Brasil o termo mais popular é "estereotipia"

Ontem fui ver o filme O Contador no cinema. É a história de Christian Wolff (Ben Affleck), um homem com síndrome de asperger que usa suas incríveis habilidades matemáticas para ajudar organizações criminosas a lavarem milhões de dólares através de empresas de fachada. Não tente imaginar o contador como o autista ingênuo e manobrável de outras produções cinematográficas. Ele é o anti-herói. Ainda que o personagem cative – e você corra o risco de absorver Chris como vítima de sua condição “neurodivergente” – vai observar que ele é produto do meio em que cresceu e, na fase adulta, mostra-se dono de suas próprias decisões e consciente de que é um assassino perigoso. 

Interessante que há poucos dias reli uma crônica do Rubem Braga que chegava mais ou menos à reflexão que proponho a seguir. Você já viu um elefante sem tromba? Provavelmente não. É até algo bizarro de imaginar, não é verdade? De toda forma, você acredita que o elefante, por estar sem a tromba, deixa de ser elefante? E um autista que já não balança o corpo para frente e para trás? E um autista que já não repete frases com frequência? E um autista que já consegue olhar nos olhos dos outros? Você acha mesmo que um autista deixa de ser autista só porque não sacode as mãos na altura dos ombros quando está em público? Acha? Quero deixar todas essas questões no ar antes de voltar ao contexto do filme.

Diante do comportamento diferente de Chris, seus pais buscam, ainda na infância dele, um especialista. Eles querem respostas imediatas para suas inquietações: o que o filho tem e como isso vai influir na sua maneira de viver. Num dado momento, o pai do menino pergunta:
– Meu filho vai ter uma vida normal? 
– Defina normal.
Sem dúvida, uma excelente resposta. Desde que entrei de pé e cabeça no mundo das diferenças (ou desde que me dei conta de que esse mundo é o lugar onde sempre vivi) sinto incômodo diante da palavra “normal”. Sim, eu sei, é apenas uma palavra, mas, especialmente quando dirigida a pessoas, sub-julga e exclui. Tenho preferido usar “comum” e sinto que me expresso melhor nesse termo. Definir “normal” é um desafio complexo, embora pareça simples.

Um casal qualquer dirá que normal é que o filho faça faculdade, empregue-se formalmente, case-se e tenha filhos. Então, se esse filho é autista e não atinge os marcos estabelecidos, alguém vai dizer que aconteceu o esperado, já que ele nunca foi uma pessoa normal. Entretanto, se esse filho não for autista, for um padre, por exemplo, que também não casou e não teve filhos, a “normalidade” de suas decisões não é posta em cheque. Pode tentar mais uma vez: defina normal. 

Sim, todas as crianças são diferentes, autistas ou não. E mesmo dentro do autismo há uma variação imensa de comportamentos de acordo com as habilidades da criança e as dificuldades geradas pelas áreas de comprometimento, além da intensidade desse comprometimento. Mas, essas não são as únicas variáveis.

Nenhuma das gradações existentes dentro do espectro do autismo (alto e baixo funcionamento; leve, moderado ou severo; e tudo que ainda há de surgir) deve impedir que nós pais, vejamos nossos filhos como filhos, como pessoas que têm peculiaridades, como nós também temos, e um potencial insondável. Será que nossa maneira de amar, educar, cuidar, compreender, dar acesso a um auxílio terapêutico que não os puna por serem quem verdadeiramente são vai influir mais no resultado final do adulto que eles serão ou continuaremos a acreditar que o autismo os manobra?

O filme O Contador dá uma sugestão de resposta para essa interrogação e para outras tantas. Tem cenas ricas de auto-estimulação, inflexibilidade, crise nervosa, apego a rotina etc. Porém, Christian Wolff não é nosso filho. Não vá aos cinemas para alimentar novas expectativas. Vá para apreciar uma história de ação um pouco empolgante e captar o que há de realidade sobre a ficção. O autismo não mudou desde que surgiu, já a compreensão sobre ele (e sobre nós mesmos) precisa mudar ou acabaremos na vala funda e sombria da anormalidade estabelecida.

Ficou curioso? Veja o trailler.



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