quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O autista na ponta do pé e outras desordens motoras

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Você já se apaixonou? Eu espero que sim, pois é realmente um estágio maravilhoso. Desejo de coração que você não passe pela experiência “vida” sem ter se apaixonado pelo menos algumas vezes. Quando nos apaixonamos, as sensações nos saltam tão a flor da pele (tato, olfato, visão, audição, paladar) que é como se tudo o que sentimos pertencesse à carne. Só que nada é puramente carnal. Os sentidos estão o tempo inteiro se comunicando com o cérebro, que transforma a sensação em recepção e entendimento. Não enlouquecemos com todo aquele bombardeio sensorial que a paixão nos provoca porque o que sentimos ecoa para nossa organização cerebral, revertendo até as sensações mais estranhas em estímulos prazerosos.

O que isso tem a ver com desordens motoras em crianças com autismo? Tudo.

Existem crianças autistas que desenvolvem um tipo diferente de marcha, andam nas pontas dos pés. Os especialistas se referem a esse tipo postural como marcha equina, marcha do espectro, entre outras denominações. Talvez você já tenha reparado essa excentricidade até mesmo no seu filho. Meu pequeno Bento – hoje não tão pequeno, no alto dos seus 4 anos – não anda na ponta dos pés, embora eu já tenha observado que posiciona o pé dessa maneira como impulso para correr, dançar ou pular. Esse movimento é geralmente breve e quase imperceptível – não para os meus olhos de águia; quer dizer, olhos de mãe.

Desde que comecei a conhecer crianças autistas uma das coisas que mais me chama atenção é como elas têm comportamento motor parecido. Bento sempre adorou correr e eu sempre achei seu modo de correr diferente, estranho. Então, convivendo com outros autistas foi impossível não reparar como eles também corriam de maneira diferente, meio desengonçada, como meu filho. Embora, corressem livremente e sem empecilhos, felizes como toda a garotada. A maneira como mantêm a posição das mãos, como pulam, sobem e descem escadas, até o modo como ficam parados é muito parecida entre as crianças com autismo – mesmo quando os estágios de comprometimento são variados. De qualquer forma, todas essas constatações são empíricas, sou apenas uma mãe observadora e a literatura disponível a respeito de desordens motoras em autismo é pequena fora dos muros das universidades e dos congressos direcionados.

Se você já sentou para conversar com a terapeuta ocupacional do seu filho autista é possível que ela já tenha lhe dito algo sobre “integração sensorial” - que, grosso modo, é a interpretação que o cérebro dá aos estímulos externos. Em autismo não é incomum que alguém diga que o filho parece não sentir dor, mas também é comum o relato de crianças muito sensíveis. Pode ser que estejamos falando de dois extremos: hipossensibilidade e hipersensibilidade. Uma criança hipersensível, por exemplo, pode elevar os pés do chão porque o contato com os diferentes tipos de piso lhe trazem uma espécie de informação indecifrável – por isso, essa mesma criança pode evitar andar descalço, pisar em areia, grama, no molhado etc. Uma criança hipossensível, por outro lado, que parece muitas vezes não notar quando é tocada, pode gostar e andar descalço, de apertar o outro e senti-lo, mas também descarregar o peso do corpo na ponta dos pés enquanto explora o ambiente em busca de obter essa carga de sensações que parece lhe faltar.

O artigo “Análise do padrão de marcha do espectro autista”, de 2014, diz que embora haja controvérsias, o desenvolvimento motor tem sido frequentemente implicado como um biomarcador precoce de autismo. Existem estudos que apontam que a análise do sentar, do engatinhar, o ficar em pé e o andar nos primeiros meses de vida já pode indicar padrões assimétricos de movimento. E que, sendo as desordens do movimento mais cedo identificáveis do que as desordens sociais e anormalidades linguísticas, que caracterizam o autismo, a intervenção pode ser feita mais precocemente, provocando uma nova organização.

O padrão de marcha alterado na criança com autismo pode comprometer suas atividades de vida diária e “levar a dor, fadiga e stress das articulações, afetando assim suas capacidades cinéticas funcionais”. Há relatos de crianças com diagnóstico tardio de autismo que apresentam problemas “no padrão motor da marcha, onde utilizavam a ponta dos pés para tal, mostraram também postura assimétrica do braço durante a caminhada e anomalias no movimento geral. Os autores sugerem que o movimento anormal do braço pode estar relacionado com o controle do equilíbrio”. Essas anormalidades foram atribuídas a um sistema neural imaturo.

É frequente em crianças com autismo a percepção de “uma marcha caracterizada mais dura com alterações posturais de tronco e dificuldades muito significativas para manter uma linha reta”. Essa percepção envolve tanto habilidades motoras básicas como controle motor em que envolve o processo de integração de informações e processamento. Na maioria dos casos não se trata de um problema ortopédico, como muitos pais cogitam, mas com o passar dos anos pode evoluir para um, afetando ainda quadril, tornozelos e joelhos.

Por isso é tão importante que a criança com autismo seja exposta a estimulação sensorial, via terapia ocupacional, e psicomotora, via educação física, fisioterapia. Converse com seu médico, relate as limitações sensoriais da criança (ao som, ao toque, as cheiro…) e decidam juntos o próximo passo.

É difícil, eu diria impossível, trabalhar fala/linguagem, interação social, comportamento, concentração, aprendizagem etc. se os estímulos do ambiente parecem lutar contra os sentidos das nossas crianças o tempo inteiro e são recebidos de maneira equivocada pela organização “desordenada” que seu cérebro assimila. Na afobação do dia a dia e de ter que decidir entre tantas abordagens terapêuticas, não é raro ir deixando de lado o que é fundamental. Nem sempre temos a melhor orientação e pode demorar muito para percebermos sozinhos que em autismo (como na vida) é assim mesmo: o fundamental às vezes vem disfarçado de detalhe.

Fontes:



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