quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Um texto longo e sofrido sobre autismo, depressão e maternidade

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Eu sei que há muitas mães sofrendo agora, nesse momento mesmo em que escrevo. Arrisco dizer que a maioria delas está sofrendo sozinha, na solidão de seus medos, vergonhas, planos interrompidos. Também arrisco dizer que a maioria das que tem uma criança em investigação ou com diagnóstico de autismo acredita que a razão desse sofrimento todo é o autismo em si. Tudo mudou desde que essa palavra começou a rondar a vida delas; tudo mudou entre a negação e as visitas anônimas a sites sobre o assunto e blogs de mães de autistas; tudo mudou enquanto insistiam no ar de total normalidade. Então, embora eu já tenha adiado a escrita desse texto milhões de vezes, talvez seja a hora de dizer com todas as palavras que sou uma mãe como vocês, que passei e ainda passo pelas mesmas angústias e que, quem sabe, juntando a minha solidão com as suas, eu me sinta menos só e vocês sintam o mesmo.

Preciso começar dizendo que quando vieram as primeiras desconfianças de que Bento, à época com pouco mais de 2 anos, tinha alterações no desenvolvimento compatíveis com o quadro de autismo eu estava grávida do meu segundo filho, Tomé. Como se pode intuir a partir dessa informação, tive uma gravidez tensa, angustiada e com pouco ânimo. Eu sabia nada de autismo e optei por não dividir minhas desconfianças com ninguém – afinal, até eu desconfiava delas. Dei um pouco de tempo ao tempo (pouco mesmo, poucos meses) e fui me munindo do máximo de informação que conseguia, lembrando de vez em quando que era uma mulher grávida, para me obrigar a parar e respirar.

Chegou um ponto que meu ânimo com a gravidez estava tão baixo, embora fosse tudo bem comigo e com o bebê planejado, que meu obstetra percebeu algo errado. Em conversa com ele, sem mencionar autismo, contei de algumas coisas estranhas que estavam acontecendo comigo: a todo tempo eu tinha medo de morrer, medo que meus filhos morressem, tinha medo de pegar o carro e sair, pois sempre imaginava que sofreríamos um acidente ou seríamos assaltados, sequestrados, assassinados, coisas do tipo. Nessa época eu deixei de ter sonhos quando dormia e passei a ter exclusivamente pesadelos.

Ele me encaminhou para uma psicóloga que era especialista em conflitos na maternidade, disse que eu estava precisando de acompanhamento e que as coisas que sentia não eram incomuns como eu pensava. Coloquei o cartãozinho na bolsa. Resultado: não fui à psicóloga coisa nenhuma e durante as consultas de rotina da gravidez fingi ter melhorado. Na verdade, estava tão angustiada que até vínculo com meu bebê ficou difícil estabelecer. Dividi um pouco da angústia com meu marido, que me apoiou, mas eu estava a poucos meses de parir e direcionamos o foco para esse momento. Minha família inteira mora muito distante (Pernambuco), a família dele também (Ceará) e ele trabalhava demais nesse período, sendo uma ausência constante para nós durante a gravidez e durante o primeiro ano de vida de Tomé. Fui literalmente engolida pela solidão até que Tomé nasceu e, então, solidão e cansaço físico se misturaram de um jeito que eu me perdi totalmente de mim.

Com poucos meses de vida de Tomé, Bento começou as terapias (fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e psicóloga), sugestão de uma ótima psiquiatra infantil que conhecemos. Essa psiquiatra de gente pequena notou minha imensa agonia de gente grande só de conversar comigo e me indicou um colega. Pela segunda vez peguei a indicação e nunca procurei o profissional. Era uma espécie de autossabotagem, porém, eu não percebia. Achava o seguinte: quem precisa de ajuda é meu filho, não eu, e não podemos gastar dinheiro com isso. Quando o terceiro médico, a pediatra de Tomé, disse que eu precisava me tratar, escutei com um pouco mais de seriedade. Não podia ser coincidência. Como eu tinha plano de saúde, resolvi buscar no catálogo do convênio um profissional por acaso. Encontrei vaga numa psicóloga que encaixava certinho no horário em que Bento estava na fono; se tudo corresse bem conseguiria dar um pulo lá e voltar para buscá-lo a tempo.

Foi nesse consultório, em dez sessões de trinta minutos cada, que tive certeza que quase toda angústia que o autismo do meu filho fez despertar já estava em mim eu não percebi. Estava na solidão que eu cultivava a anos, na falta de amigos, familiares e vida social. Estava no abandono da vida profissional, na ausência de autoestima, na eterna espera que tinha se transformado meu casamento. Foi lá que olhei para mim e vi que tinha deixado de ser uma pessoa e me tornado uma máquina de cumprir tarefas e que nenhuma dessas tarefas me incluía como beneficiária direta. Lá me descobri há anos sem ir ao cinema, há anos sem escutar uma música, há anos sem ler um livro ou escrever (lista de supermercado não vale!).

Quando o autismo chegou e tocou essa realidade com a fúria de um leão comecei a sofrer consequências psíquicas e físicas desse choque. Desenvolvi uma espécie de transtorno, e durou alguns meses, em que, por exemplo, eu descia e subia as escadas de casa várias vezes durante a noite para conferir se as portas e janelas estavam fechadas, mesmo muito cansada, mesmo sabendo que elas estavam fechadas sim. Ou voltava para conferir várias vezes se tinha acionado o alarme do carro, se tinha estacionado direito. Tantas vezes deixei de comer, almoçar principalmente, pois acreditava que a comida não passaria pela minha garganta, que eu não conseguiria engolir, que morreria sufocada. Uma severa queda de cabelo deixou uma cratera evidente no topo do meu couro cabeludo, um tipo de calvície que ainda tento reverter. E mais: percorri esse caminho quase sempre com um sorriso nos lábios, para que ninguém me percebesse daquele jeito e para que eu mesma não acreditasse no que sentia. Depois dessas dez sessões tão reveladoras não tive mais coragem de voltar à terapia, fugi como uma criança amedrontada, mas sinto uma gratidão sem fim pela psicóloga do plano de saúde que me ajudou em Maceió, em 2016, talvez meu pior ano, e também o que chamo de "ano essencial".

Ela me fez ver que provavelmente eu comecei um processo depressivo poucos meses depois do meu filho Bento nascer, que se arrastou pela gravidez e o nascimento do Tomé e pelo diagnóstico de autismo de Bento. Esse processo deve acomodar melancolias da minha infância e adolescência, inclusive. Eu fui uma criança e uma adolescente melancólica, sem dúvida, contudo, sempre com aquele sorriso nos lábios. Não foi o autismo que me trouxe tudo, agora isso é claro, mas quando o autismo chegou eu obviamente não tinha base de sustentação emocional para encará-lo (só achava que tinha) e precisava de um culpado exclusivo para aquelas peças mal encaixadas no meu jogo de tabuleiro imaginário. Hoje eu preciso buscar essa base que está em lugares acessíveis: em mim, na minha família, no meu ciclo de convívio, nas atividades que me podem devolver qualquer tipo de prazer, na arte, numa bandeira específica ou até numa refeição que já não temo engolir. Nem sempre consigo, tenho altos e baixos, como todo mundo.

Nesse processo de reencontro, a informação e a rede de conexões em que me sinto envolvida por conta do autismo agora me ajudam a compreender melhor as peculiaridades do meu filho e a me posicionar o mais confortável possível dentro dessa maternidade peculiar. Criar uma agenda positiva para o autismo, através de um blog como esse, é uma das minhas gambiarras terapêuticas e meu foco é realmente nas mães, por motivos óbvios. As mães precisam se sentir amparadas para amparar ou em caso de desmoronamento delas, tudo em volta desmorona junto, e a primeira vítima de uma queda brusca assim é, sem dúvida, o filho que necessita de mais cuidados.

Isso não quer dizer que o autismo dos nossos filhos, por si só, não nos meta todos os dias em picos de desânimo e até desespero; em especial, quando esse autismo está associado a outros fatores (biológicos, familiares, sociais) que criam enormes barreiras para o autista expandir suas formas de sintonia com ele mesmo, com as outras pessoas e com o mundo a sua volta. Quer dizer que quando esse desânimo e esse desespero chegarem terão uma força devastadora se encontrarem alguém já emocionalmente em fagulhas, prestes a explodir. Às vezes, o autismo parece a bomba, quando, na verdade, é o estopim. 

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