sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Autismo e genialidade

Não precisa ser gênio: tudo o que você faz, para mim, é sempre genial
Não faz muito tempo o espectro do autismo se tornou uma presença diária na rotina da minha família, através das dificuldades e habilidades do meu filho Bento, e já tive de escutar algumas vezes essa frase: autistas são gênios. As pessoas que me dizem isso não parecem mal intencionadas, ainda que falem como se genialidade fosse uma espécie de prêmio de consolação - ora, ele é autista, então, que seja também um gênio, pelo menos! 

Quando respondo que autistas não são gênios, são pessoas que, como algumas outras, podem desenvolver (ou não) grandes habilidades em áreas específicas, sinto que me olham como se eu estivesse cometendo o erro de recusar o prêmio. Embora a genialidade exista para um seleto grupo de indivíduos dentro e fora do espectro do autismo, eu não acredito que ser um gênio possa ajudar meu filho, especialmente quando penso em seu déficit nas relações sociais - característica que, atenuada ou não, pode lhe acompanhar por toda vida.

É certo que jamais impedirei Bento de desenvolver interesse em qualquer área que seja hábil, pelo contrário, serei sua grande incentivadora e entusiasta. Isso não quer dizer que eu consiga projetá-lo para daqui a alguns anos desenvolvendo fórmulas, plantas ou teorias espetaculares. O que eu desejaria, de verdade, se pudesse esfregar a lâmpada mágica da vida, era vê-lo me telefonar para contar uma banalidade qualquer, para me lembrar que o filme que tanto espero vai estrear em breve, que está bravo porque o carro enguiçou quando levava a namorada de volta para casa, e coisas do gênero. É uma projeção, eu sei. Projeções - por mais inocentes que pareçam - podem ser incompatíveis com a realidade. Mas, talvez eu tenha me tornado mãe só para ter acesso a esses desejos maternos. 

Eu não gosto de ver vídeos de crianças prodígio ou autistas reconhecidos apresentando seus super talentos para uma plateia estupefata, maravilhada. Nunca gostei e hoje gosto menos. Li recentemente um livro autobiográfico de uma autista considerada revolucionária em sua área de atuação, entretanto, adoraria ler também a história de um autista que tem uma padaria de bairro, trabalha numa oficina mecânica ou constituiu uma família comum. Ao que me parece, narrativas assim não despertam interesse editorial. Esses autistas, que certamente existem, jamais estarão nas tardes de domingo das grandes emissoras de TV tendo a chance de desmistificar o transtorno. 

Por fim, não posso deixar de dizer o seguinte: as pessoas que mais amo no mundo têm idade, ocupação, etnia, religião e ideologia diversas. E um ponto comum: não são gênios. Eu não acho que as amaria menos se elas fossem, porém, não é uma condição que considero no campo afetivo. Além do mais, nunca ninguém precisou ser genial para chamar minha atenção ou conquistar meu coração predominantemente burro.

4 comentários:

  1. É mesmo Isolda nao necessita tantos rotulos tudo é individual..tenho um filho c leve autismo mas ja é um jovem rapaz..moro no sul da Duecia awui é muito precario ajuda as pessoas com autismo.

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    1. Aqui no Brasil também. Acredito que temos que ser parte de uma legião de pais, familiares e educadores informados para mexer com essa realidade. Beijos.

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  2. Ha pouco,tomei a decisão de cuidar e estar mais presentes na vida dos meus filhos, acompanhar suas rotinas, o Henrique com nove anos e o Mateus com seis anos, diagnosticado com autismo.
    O que quero é isso, dar-lhes oportunidades e condições de se tornarem independentes. Estar ao lado deles, por mais "simples" que sejam os momentos.
    Acredito que tudo é possível!!!

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  3. Ha pouco,tomei a decisão de cuidar e estar mais presentes na vida dos meus filhos, acompanhar suas rotinas, o Henrique com nove anos e o Mateus com seis anos, diagnosticado com autismo.
    O que quero é isso, dar-lhes oportunidades e condições de se tornarem independentes. Estar ao lado deles, por mais "simples" que sejam os momentos.
    Acredito que tudo é possível!!!

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