quarta-feira, 7 de junho de 2017

Meu filho diferente

Fonte: Google Imagens.

Durante o final de semana encontramos um coleguinha de turma do Bento numa lanchonete. Eu adoro conversar com esses pequenos, que acabam me passando muita informação sobre a escola que não obtenho do meu próprio filho, por sua dificuldade óbvia de comunicação. Através deles, fico sabendo de forma mais solta – não apenas pelos relatos profissionais – que ele sai da sala de aula com frequência, deixa de prestar atenção a qualquer coisa para ler gibis etc.

Na lanchonete, papai Julio e eu estávamos sentados escolhendo o pedido, enquanto Tomé (meu mais novo) e Bento já brincavam no espaço kids. O coleguinha chegou de mansinho, falou com Bento, que não respondeu. Percebendo o imbróglio fui lá intermediar – mães de autistas são intermediadoras natas. Eu conhecia o menininho de vista, só não sabia que ele era da turma do meu filho, achei que estivesse uma à frente, coisa que o menino me esclareceu de pronto, dizendo ser da mesma sala e ter a mesma professora, claro. Resolvido o mal entendido, perguntei ao pequeno, quando já estávamos à mesa lanchando, como era o Bento na sala de aula. 

- Ele é diferente dos outros.

Bem, eu sei que meu filho é diferente, mas a frase saindo da boca daquela criança ainda me causou algum espanto, muito espanto na verdade. Bento estava do nosso lado e só ouvia, sem reagir ao que era dito. Instiguei um pouco mais: ele é diferente, como?

- Ele não fala com ninguém. Só às vezes.

Não preciso mentir ou dizer que isso não bateu forte em meu coração. Bateu. E no do pai também. Nosso filho é diferente. Nós sabemos disso. Os médicos e terapeutas sabem disso. A escola sabe disso. Todas as pessoas a quem posso atingir com minha vivência (dentro ou fora do nosso ciclo social e familiar) sabem disso. As outras crianças sabem disso. Não é novidade para ninguém, porém, a pergunta que não quer calar é: o quanto ser diferente vai fazer diferença na vida do meu filho? Essa questão, formulada pela minha própria ansiedade, jamais será respondida sem que eu tenha que apelar para a futorologia. E futuro é um brinquedo que não está em nossas mãos. Existe o presente, é só com ele que podemos brincar. 

Muitas outras coisas foram ditas naquela mesa, o pequeno era um verdadeiro tagarela, como a quase totalidade das crianças da classe de Bento. Sempre estimulado por minhas perguntas, ele revelou que Bento gosta muito de parquinho e de maçã, além dos gibis, e sobre rotinas da escola. Quando a conversa começou a ficar chata, tipo conversa de adulto, as crianças voltaram para a ala infantil. Bento deitou naquela posição clássica que vários autistas, e não somente autistas, gostam de brincar (como a foto que ilustra esse post), ele tinha um boneco nas mãos. O coleguinha, então, posicionou-se da mesma maneira para iniciar a tentativa de interação. Vejam bem, a criança típica sem nenhum treinamento prévio sentiu a criança atípica. Ela sabe que meu filho Bento é diferente e, por instinto, ela também sabe que as diferenças dele não inviabilizam suas relações. Em pouquíssimo tempo os dois estavam brincando de luta, cada qual com seu boneco. O colega investia em provocar (“bate o meu”) e Bento respondia batendo e rindo, não apenas por saber atender à instrução, a resposta vinha do fato de ele estar à vontade diante do outro para agir. Foi muito emocionante ver aquilo acontecer minutos depois da pressão das pequenas frases daquele garoto desconhecido e íntimo. 

Sim, já tive a fase de pensar que meu filho não teria amigos. No começo de tudo, pois ele parecia não se conectar com os outros. Eu sempre interpretei que ele não queria essa ligação, só depois aprendi a ler nas entrelinhas, a perceber quando ele queria e não conseguia; quando ele precisava de ajuda, contudo, não sabia pedir ajuda, e quando ele estava reivindicando mesmo seu direito à solidão. Depois passei para a fase de pensar que ele terá amigos, mas poucos, talvez pouquíssimos, como eu mesma. E se você me perguntar: quantos? Diante dessa cena e de tantas cenas que a vida nos oferta todos os dias para que aprendamos a entender a existência de uma forma mais generosa, até tenho uma resposta pronta para quantos amigos meu filho terá: todos os que verdadeiramente importam. 

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