segunda-feira, 15 de maio de 2017

Autismo: corrigir ou adaptar?

Arquivo pessoal/2017
Tenho plena consciência de que entendo pouco de autismo, porém, entendo muito dos meus filhos. O filho é apresentado à mãe antes de ser apresentado ao mundo. O sentimento de maternidade precede o nascimento e passa por um aprimoramento que deve durar até o fim da vida. Esse é meu entendimento e a forma mais clara que encontrei para relembrar que a criança chega ao lar antes do diagnóstico de autismo. Antes de você conhecer o nome e a face da condição que possivelmente explica diversas das dificuldades de desenvolvimento do seu filho, as dificuldades já existiam. E você lidava com elas de forma correta, incorreta, com tranquilidade ou desespero.

Eu sempre trabalhei com a intuição em relação aos meus pequenos. Quando Bento começou a apresentar indícios de desenvolvimento atípico tentei ajudar como pude. As primeiras questões que apareceram foram sensoriais (como sensibilidade ao barulho), motoras (até hoje ele tem dificuldade de descer escada sem apoio, por exemplo), de linguagem (falava, contudo, não conversava) e de interação (dificuldade de se envolver com outras crianças). Havia pontos que eu não considerava tão problemáticos assim, apenas estranhava, pois não via outras crianças se manifestando daquela forma – parecia algo único e incompreensível: quando ele balançava as mãos freneticamente (flapping), dava “tchau” ao contrário (com a palma da mão voltada para o próprio corpo) e beijos sem estalo, por exemplo. À maneira materna ia tentando lhe orientar dentro disso tudo, até que ficou claro que não podia ser uma tarefa solitária. Eu precisava de auxílio e o primeiro passo devia mesmo ser buscar alguém que me ajudasse a compreender. Aí começou a peregrinação por especialistas. À medida que as respostas iam chegando percebíamos o volume das perguntas que tínhamos em relação ao nosso filhote. Eram muitas.

A convivência, que é anterior à chegada dos especialistas, vinha me mostrando que meu filho tinha uma maneira diferente de se apresentar frente a algumas questões. Foi preciso combater seu jeito diferente de ser – tentando moldá-lo – para descobrir que essa estratégia não era boa e também era um pouco desumana, pois não considerava seu ponto de vista. Isso quer dizer que se ele dava “tchau” ao contrário eu precisaria respeitar seu modo de dar “tchau”? Não é bem por aí. Talvez eu devesse me ater ao que estava antes do “tchau”. E antes do “tchau” vem a compreensão do “tchau”. Como assim? Bento tem uma maneira diferente de receber e assimilar as informações e também as instruções, como a maioria das crianças autistas. Ou seja: muito do que eu quero passar para ele tem que ser adaptado a essa maneira primeira de ver para depois reagir.

Foi preciso observar bastante meu filho acenando “tchau” para compreender que quando as pessoas davam “tchau” para ele o que ele imediatamente via era a palma da mão delas. Então, quando pensava em reproduzir o movimento ele também queria ver a palma da própria mão. Bento não apenas dava “tchau” com a palma da mão voltada para si mesmo, como fixava o olhar na palma, como que garantido que estava fazendo da maneira correta (ele é um tanto perfeccionista). Perceber isso foi minha mina de ouro. A terapeuta aconselhou treinar com ele o “tchauzinho” de frente ao espelho, pois, na imagem espelhada ele conseguiria ver quando a posição da mão estava de acordo. Eu acho um ótimo método, mas ele não compreendeu. O método que utilizei e foi muito eficaz foi me posicionar atrás do seu corpo, como uma sombra, e “guiar” a mão dele na hora do aceno (como mostra a foto que ilustra esse post). Sempre que percebia a intenção  dele de se despedir me posicionava detrás do seu corpinho, como uma chata, conduzindo por fora a direção da mãozinha. Usei o mesmo método para ele colocar a mão no peito se referindo a si mesmo como “eu” ou acenando algo como “meu”. E ainda uso, não tenham dúvida, a última vez foi para que ele entendesse o posicionamento da mão para subir um obstáculo no parquinho. Sou a famosa "mãe-sombra" com orgulho!

A compreensão do beijo sem estalo veio através da fonoaudióloga, que me explicou um pouco sobre essa leitura literal das situações. Quando ele via as pessoas trocando beijinhos e o estalo sair do encontro dos lábios de uma na bochecha da outra, a compreensão dele talvez fosse de que o barulho era algo automático, associado ao ato de beijar, não algo que se produz à parte. Ele só começou a entender esse mecanismo quando passamos a explicar claramente que encostar os lábios era um ato e produzir o barulho era outro ato. Ainda assim, no início da compreensão ele continuava a dar muitos beijos sem estalo. Aí, pedíamos, sem recriminar: agora um beijo com barulho, Bento. Ele tinha que processar um pouco mais para responder. Até que um dia entramos na era definitiva dos beijos barulhentos. 

Esses são dois pequenos exemplos que resolvi dar porque, ao entrar no mundo do autismo e das salas de recepção com outras mães de autistas, conheci muitas crianças como Bento, que também davam “tchauzinho” ao contrário e também davam beijos calados. E muitas de nós tentou corrigir esses hábitos antes de tentar entendê-los. Entender sempre deve ser prioridade. A correção não é a única via de aprendizagem, especialmente em casos em que não é necessário corrigir, "apenas" adaptar. 

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