segunda-feira, 16 de maio de 2016

Estimule seu filho a dizer: sim, não e não sei

Resultado de imagem para sim polegar
Aqui em casa deu certo combinar fala e gestual (Google Imagens)
No último post, escrevi sobre o medo das mães de que seus filhos com TEA/autismo não falem. Mas, se o seu filho é verbal (usa a fala para se comunicar), então, os seus problemas acabaram? Não mesmo. A fala é apenas um dos elementos da linguagem humana, que incorpora ainda movimentos faciais, gestuais, o silêncio, os sentidos figurados etc. A comunicação verbal efetiva passa por todos esses itens. Falar, definitivamente, não basta.

Bento fala, sempre falou e apresentou atraso na fase do diálogo. Quando ele tinha pouco mais de 2 anos eu notei que algumas perguntas aparentemente simples para a idade dele não estavam sendo respondidas adequadamente. Ele parecia não compreender com exatidão o que eu lhe perguntava. Vou dar um exemplo fácil. Se eu lhe perguntasse: Bento, você quer essa cueca azul? Ele olhava para mim com uma carinha de quem não estava entendendo bem, mas, pela presença da fala, já sabia que a resposta afirmativa cabia naquele contexto. Portanto, respondia “sim” e encerrava o assunto. Se eu não me convencesse de que aquela escolha era consciente, instigava mais: Bento, você quer a cueca azul, sim ou não? Essa pergunta embaralhava sua cabecinha, então, ele usava o recurso da ecolalia (repetição) e me devolvia como resposta o eco da minha própria pergunta: Sim ou não - era como ele respondia. Outro padrão de resposta que ele utilizava era: quer-a-cueca-azul. Uma resposta meio pergunta. Mais ecolalia imediata. 

Notando essa dificuldade que ninguém parecia dar muita importância, comecei, com meu marido, a juntar o gestual à palavra dita. Ensinei a conjugar o “sim” com o afirmativo gesto de legal (com o polegar para cima) e o “não” com o polegar voltado para baixo. Fiz isso dia e noite por um longo período até que ele assimilou que o "sim" era somente para as coisas desejáveis e o "não" para as indesejáveis. Ele passou bastante tempo sem conseguir dissociar a palavra do gesto, ou seja: não conseguia dizer o “sim” sem o polegarzinho em riste e, da mesma forma, o “não” nem saía sem o dedinho para baixo. O que no final das contas virou um hábito fofo e engraçado, pois, ele é uma criança. Hoje, aos 3 anos e 7 meses, Bento, às vezes, ainda associa a palavra à posição do polegar, mas está ficando raro.

Ufa, ele conseguiu chegar à fase de responder sim e não com propriedade. Maravilha! Aí surgiu outro probleminha: a não habilidade para usar a expressão “não sei”. Ele simplesmente não sabia fazer uso dela. Então, quando era adequado dizer “não sei”, Bento respondia “sim” e pronto. Outro exemplo: Bento, qual o nome da tia nova da natação? Resposta: “sim”. Sentiu o drama?

Para resolver essa questão contei com o auxílio do pai dele e juntos fazíamos dramatizações no meio da sala com perguntas e respostas combinadas de modo que ele pudesse observar e diferenciar o uso adequado do “sim”, do “não” e, finalmente, do “não sei”. O recurso do teatro aqui em casa é bem efetivo, ele assiste a cena como se estivesse vendo TV e capta rápido. Em pouco tempo Bento já estava dizendo “eu não sei” pra tudo, até para aquilo que sabia. Com a prática, foi diferenciando melhor.

Hoje ele responde com as três palavrinhas mágicas, um ganho do tamanho do universo. Tem ainda uma leve tendência a dizer “sim” para muitas coisas, porém, quando pergunto “você tem certeza?”, ele já reconsidera e pode ou não corrigir.

Estimulá-lo a usar essas palavras foi um instinto do dia a dia, mas, hoje, já afastada pelo tempo dessas cenas que relatei, vejo o quanto foi importante para ele e para nós. O quanto a comunicação dele evoluiu a partir desse domínio simples. Uma verdadeira conquista que também desejo para o seu filho e para você.

6 comentários:

  1. Sorriso no rosto lendo seus posts!!!
    Quanta simplicidade, quanta objetividade e clareza. Suas posturas são inspiradoras e te vejo consolidando seu espaço de se tornar referência para as famílias e profissionais. Parabéns querida! Segue firme que sua trajetória no mundo dos blogs está belíssima. Orgulho master de ti!!!

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    1. Nossa, essa foi forte! Fausta, imagine que mesmo dentro de casa meus métodos para lidar com as dificuldsdes do meu pequeno, quando apareciam, eram taxados de maluquice. Eu nunca liguei, era meu instinto me falando, seguia e pronto. Para que meu filho abandonasse a fala "quer isso, quer aquilo" e subistituisse por "eu quero" eu fiz até uma placa com essas palavras que ficava na cozinha, perto da geladeira. Eu mesma deixei de falar a palavra "quer" em casa. Hoje, com ajuda profissional reconheço o quanto me tornei mais funcional, mas jamais deixarei de ouvir falar meu instinto materno. É a voz do amor querendo ser ouvida. Beijo!

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  2. Maravilhoso,aprendendo aqui no blog.Meu netinho é não verbal,fala algumas palavras soltas e a cada som fazemos uma festa estou me preparando ,caso ele verbalize teremos que ensiná-lo a compreender dentro de u m contexto todo o processo da fala,difícilll.bjs!

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    1. Obrigada! Vamos em frente, ele chega lá, Karen.

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