domingo, 27 de novembro de 2016

Mães estressadas são menos eficazes para filhos autistas

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O estresse pode destruir sua eficácia
Quem é mãe de uma criança com autismo sabe o que é conviver lado a lado com o estresse. O estresse do medo, o estresse da dúvida, o estresse do julgamento social, o estresse da escolha do melhor tratamento, o estresse da resposta pouco efetiva, o estresse da solidão, o estresse do planejamento futuro. Sim, cabem mais itens nessa lista – ao gosto do freguês.

De acordo com o artigo “Estresse e auto-eficácia em mães de pessoas com autismo”, dos pesquisadores Carlo Schmidt e Cleonice Bosa, da Universidade do Rio Grande do Sul, o padrão de estresse dos familiares de crianças com autismo é mais elevado do que em famílias com um filho com desenvolvimento típico ou com síndrome de Down, por exemplo. Como existe uma expectativa social de que as mães tomem para si o cuidado com a criança, sobra para elas a tensão física e psicológica, marcada pela sensação de culpa e ainda a incerteza quanto suas habilidades maternais. Você já se sentiu incapaz de gerir uma situação e se perguntou se é mesmo uma boa mãe para o seu filho? Bem-vinda ao clube, é de você que os pesquisadores estão falando! Mas, calma, você não está só.

Saiba que, num estudo realizado com 30 mães de autistas – entre 30 e 56 anos – 70% apresentaram sintomas de estresse, sendo que 20% delas estão em estado de quase-exaustão. Quanto aos sintomas decorrentes do estresse, a maioria relata ansiedade diária, hipersensibilidade emocional, apatia, hipertensão arterial, taquicardia e sudorese excessiva. Nesse estudo, os pesquisadores tiveram o cuidado de excluir mães que apresentavam outros estressores evidentes, como doença física, luto recente, perda de emprego, mudança de endereço. Ou seja: o grande agente de estresse tinha que ser a rotina de quem lida com uma pessoa com autismo para que os resultados fossem melhor mensurados.

E o que causa tanto estresse? Você deve estar se perguntando para ver se bate com o seu caso. Pois bem, podemos começar por: a maioria dessas mães não trabalha fora, exercendo o papel de principal responsável dos cuidados diretos com o filho. Estudos apontam que a intensidade do convívio diário e os cuidados contínuos prestados a um membro da família com autismo se mostram como poderosos estressores que agem sobre a vida dessas famílias. Tem mais: baixos níveis de coesão entre os pais, assim como a presença de conflitos conjugais e familiares aparecem correlacionados às dificuldades de ajuste da criança. Sim, é isso mesmo: a falta de apoio conjugal incrementa os sentimentos de solidão e desamparo materno e os níveis de estresse parental têm o incrível poder de exacerbar os sintomas de autismo nas crianças.

As mães dessa amostra identificam as tarefas diárias (vestir-se, fazer a higiene pessoal, sair sozinho etc.) como as maiores dificuldades para lidar com o filho, seguidas de dificuldades de comunicação. Os altos níveis de estresse também podem ser acentuados pelo isolamento social que muitas dessas mulheres vive e a escassez de apoio, além dos temores quanto à condição futura da pessoa com autismo. A adolescência dos filhos é apontada também como potencial exacerbadora dos sintomas de estresse, já que nessa fase muitos autistas apresentam comportamentos repetitivos, autolesivos e agressivos.

A auto-eficácia, aqui relacionada com quanto os pais se sentem capazes de realizar determinadas tarefas com sucesso, sofre diretamente influência desses níveis de estresse. Os comprometimentos da comunicação e interação social parecem exercer um impacto maior no senso de auto-eficácia materna do que os demais problemas; é aí que as mães do estudo se julgam menos confiantes para lidar. As estereotipias, a agitação ou a insistência rígida – também são citados como estágios desafiadores –, porém, as mães sentem mais confiança para agir.

O que o artigo ressalta, enfim, é necessidade de intervenções voltadas para o manejo dos estressores nessas famílias. Há, em mães de autistas, uma vulnerabilidade para estresse e depressão que não deve ser desconsiderada – embora seja, o tempo inteiro. As respostas das mães dessa amostra apontam o apoio social como grande atenuante sobre o estresse, podendo impedir que ele avance para fases mais agudas. Para os autores, mesmo que essa rede de apoio (família, sociedade, instituições) não contribua de modo significativo com os cuidados diretos à criança, pode estar contribuindo para que as mães se sintam aptas para manejar, com maiores chances de sucesso, as dificuldades comportamentais de seus filhos. E uma mãe menos estressada é, claramente, uma mãe mais eficaz.
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